Uma coisa é certa e todo imigrante ou intercambista ou requerente de cidadania italiana concordam: dentro de casa ninguém aprende a falar outra língua. Descobri isso na prática desde a primeira vez que morei na Itália, em 2016, quando percebi que não bastava somente frequentar a escola. Era preciso integrar-se, interagir com a população local, conviver diariamente, falar, pensar e agir até finalmente sonhar no idioma do novo país.
E não é só falando com o caixa da sorveteria ou dando bom dia para o vizinho que isso será possível.

A essa época minha misantropia era o meu muro e não tinha nenhum amigo na cidade.
Tudo bem que fazer amizade não é coisa lá muito simples, especialmente após certa idade. Entre os quinze e vinte e dois anos, por exemplo, tempos de Ensino Médio e universidade, parece que tudo conspira para formarmos uma bela vida social. Após isso, entretanto, a coisa vai se afunilando, a convivência com pares vai sendo cada vez menos estimulada e, por fim, depois dos trinta e quarenta, acaba bastante rarefeita — ainda mais quando adiantamos a misantropia da velhice para os trinta, quarenta anos.
Mas dá!
Basta ter consciência de que o movimento é necessário.
Depois, é só se movimentar!
De volta à Itália em 2022, desta vez com minha namorada, Bianca, decidimos botar a ideia em prática numa cafeteria aqui perto de casa, em Spoltore — Pescara: um cantinho muito gostoso chamado L’Antico.


Catia Mancini, sócia e gerente do estabelecimento, sempre sorria para nós lá do outro lado da rua, enquanto esperávamos o ônibus nos primeiros dias de Itália. O imigrante, intercambista ou requerente de cidadania precisa estar sempre muito atento a esses convites não-verbais a possíveis relações de amizade — e aproveitar cada uma delas. Senão, fica sozinho.
Bianca e eu aproveitamos. Assim que tivemos oportunidade, entramos lá e pedimos um cornetto al pistacchio acompanhado de um belo capuccino. E nos apresentamos no L’Antico como novos moradores da cidade.
Os italianos são muito curiosos e sociáveis — especialmente da região central do país “para baixo”.
Cátia e o marido Marco logo se interessaram por nós e se mostraram muito aprazíveis a conversas diárias. Sempre que tem cliente na loja, ela logo nos apresenta como “os brasileiros à procura de amigos” e as pessoas vão logo aceitando nossa companhia na mesa, convidando-nos para eventos na cidade e até se oferecendo para pagar nossa conta.
Seguindo essa tática, portanto, aumentamos significativamente nosso ciclo de novos amigos, o que nos permite praticar com mais frequência o idioma. Muita gente morre de medo de conversar com as pessoas, tem receio de falar errado ou de não saber como dizer as coisas.
Faz parte!
Quem não erra não aprende e tantas vezes um erro pode acabar se tornando um evento tão engraçado quanto inesquecível — o que é bom para o vocabulário. É o que conto nessa postagem…

Semana passada, estávamos lá conversando com Cátia, Marco e outros clientes do L’Antico.
Falávamos sobre a riqueza da culinária italiana e, de repente, me lembrei de um prato maravilhoso que sempre comia em Rieti — e que prometi a Bianca levar até lá para conhecê-lo, mas, quando chegamos à Itália, o restaurante havia fechado.
Por isso, perguntei aos novos colegas se era possível encontrar no Abruzzo o tal Fettuccine all’arrabbiata e, obviamente, eles me perguntaram o que havia de especial na receita.
É que o Fettuccine nada mais é que um corte específico da massa, um pouco menor do que a Tagliatella; e arrabbiata é um nome genérico para o prato picante, apimentado, visto que, traduzido, significa algo como “brava” ou “nervosa”. O próprio restaurante em Rieti me serviu o conhecido prato de duas ou três formas completamente diferentes. Então, precisava dizer-lhes qual era a receita do prato.


No ímpeto de comunicar e praticar o novo idioma, mal consegui me lembrar de como se diz “ervilhas” em italiano — e era justamente esse o ingrediente recorrente no prato. Busquei na memória o substantivo, procurei, e, para não deixar o silêncio durar, soltei o que veio logo à mente.
— PISELLO!
Percebi imediatamente que havia falado asneira porque Cátia disfarçou, segurou gentilmente o riso, virou para o lado e, contestando a receita, simplesmente desconversou. Os outros fizeram o mesmo. Bianca ainda tentou me salvar e, perscrutando também a memória, encontrou outro possível nome para compor a receita:
— PIPISTRELLO!
É que pisello, no singular, embora possa significar ervilha, é, geralmente, usado na Itália para se referir ao genital masculino. Por isso, para evitar a confusão, quando querem se referir ao vegetal, os italianos sempre usam a palavra no plural: PISELLI.
Já pipistrello significa morcego…
E, agora sim, todo mundo riu.






