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Como descobrir seu antepassado italiano?

Cerca de oito anos atrás, eu iniciava a minha pesquisa genealógica sem ter a menor ideia de quem era o meu antepassado italiano. O processo de descoberta foi tão importante para o reconhecimento de minha cidadania italiana quanto para meu crescimento pessoal, uma vez que mergulhar na história da própria família implica mergulhar em si mesmo.

O ano era 2015

Mais que desiludido, eu estava apavorado com a vida no Brasil, em especial após sofrer dois assaltos residenciais, um em minha casa, outro na casa da minha namorada à época — então andava nas ruas arrepiado, pisando nas pontas dos cascos, sempre achando que, a qualquer momento, alguém me daria um tiro… Caso óbvio para terapia, eu sei. Assunto para outra postagem.

Nesse tempo, eu trabalhava como autor de material didático digital para o grupo SEB-COC num projeto interessantíssimo de gamificação de material didático e estava me saindo muito bem em seus quase quatro anos de prestação de serviço. O contrato me permitia trabalhar em home-office, era bem remunerado e já tinha proporcionado minha primeira viagem para o exterior, em 2014, quando conheci a República Tcheca, a Holanda, a Noruega e a Suécia — este último, à época, meu sonho de consumo de imigração — meu plano era me mudar para Suécia em 2016, mantendo-me neste trabalho que já executava de casa.

Acontece que, em 2016, o Brasil mergulhou em uma nova crise e o projeto com o SEB-COC, que se deveria ter se estendido até 2019, acabou cancelado. E, de repente, eu precisaria retornar às salas de aula no ofício de professor, o que tornava praticamente impossível minha saída do Brasil.

O fato foi gatilho para que as questões psicológicas, provocadas pelos assaltos, se intensificassem ainda mais: naquele momento eu me senti sem saída, preso, amarrado no Brasil; ameaçado tal como no episódio de um dos assaltos que sofri. E a consequência disso tudo foi uma crise de ansiedade, pânico, burnout, o que me tirou por mais de seis anos do trabalho de professor.

Os detalhes dessa crise e como consegui sair dela deixo para outra postagem. O importante nesse artigo é o que vem a seguir, pois foi nesse exato cenário, aparentemente sem saída, que descobri a lei da cidadania italiana, à qual tem direito qualquer pessoa que comprove ser descendente.

Todos nós já ouvimos, aqui e ali, nos encontros de família, alguém falar sobre um trisa, um bisa ou um nonno italiano. Se a história não sobreviveu no sobrenome do antepassado, tantas vezes perdido em cem anos de genealogia, certamente fica ecoando, mesmo fraquinha, na memória:

— Somos descendentes de italianos!

Após a desilusão com o trabalho em home-office na Suécia, um dia, navegando pelo Facebook, apareceu uma postagem sobre cidadania italiana, explicando o quão simples é adquiri-la e os benefícios que ela traz. Começava naquele momento minha pesquisa genealógica. Precisava descobrir quem era o antepassado que me daria o passaporte para a vida na Suécia — sim, meus planos ainda tinham a Suécia como norte e os detalhes que me fariam abandoná-los definitivamente também são elementos para outra postagem neste blog.

O importante aqui é dizer que eu não sabia absolutamente nada sobre meu antepassado: seu nome, sua origem, com quem tinha se casado, onde tinha se casado, onde tinha vivido, morrido e por quê… Sei que parecem irrelevantes certos detalhes dessa pesquisa, mas garanto que quando você começar a sua, descobrirá que não são.

A princípio, tudo que precisamos é das certidões de nascimento, casamento e (para garantir mais segurança no processo de reconhecimento) a de óbito, o que inicialmente nos guia a uma pesquisa fria e mecânica. Entretanto, logo ela se transforma num profundo mergulho em nossa história e, consequentemente, em nós mesmos.

Tenho muito para contar sobre como foi o meu processo, mas isso também é semente para postagens posteriores, de modo que resta aqui mostrar ao leitor os caminhos pelos quais passei para descobrir o meu antenato — de uma forma bem pragmática para que se tornem os seus caminhos também.

Acho importante, por isso, repetir neste parágrafo que eu não sabia absolutamente nada sobre o meu antepassado. Minha mãe, filha caçula de cinco irmãos, também sabia muito pouco sobre o avô e mesmo os meus tios mais velhos, que conviveram com os italianos, tiveram dificuldade de me passar informações. Não era comum, naquela época, os adultos conversarem dessas coisas com as crianças, não apenas porque estavam muito envolvidos com o trabalho para sustentar a família, mas também porque havia certa preocupação, medo e até vergonha de falar sobre o assunto — seja porque a Itália se tornara adversária do Brasil na guerra, seja por questões relacionadas às falsas promessas de abundância de terra no Brasil.

O fato é que, mesmo assim, eu consegui, com eles, informações suficientes para começar minha pesquisa. Tenho certeza que, da mesma forma, você também conseguirá as suas. O importante é não desanimar quando encontrar obstáculos, quando se achar sem saída ou quando pensar que não há mais caminhos… Sempre haverá!

Então, vamos começar?

Comece, portanto, conversando com as pessoas mais velhas de sua família: tios, tias, avós, primos mais velhos… há sempre alguém que ouviu um detalhe que parece irrelevante e lá na frente, em sua pesquisa, você descobrirá que não é. No meu caso, por exemplo, escutei de um dos meus tios que meu bisavô viera escondido no porão do navio, sozinho, sem plano de família como era normalmente.

Essa história só me foi contada porque, segundo esse tio, minha avó, filha de portugueses, gostava de caçoar do meu avô, filho de italianos, quando este se gabava de que os italianos eram melhores:

— Seu pai veio pirata no navio! Bela família… — dizia ela.

Esse detalhe foi fundamental para buscar nos arquivos do Museu da Imigração no Brasil e encontrar um garoto de dezesseis anos que veio sozinho — ou como atestam os arquivos, expontâneo. Nem quero descrever aqui a emoção que senti, mas garanto que terá a sua em cada descoberta a respeito do seu.

Caso você não possa se encontrar com a família em pessoa, faça um grupo no whatsapp para falar sobre o assunto. Hoje em dia, a tecnologia ajuda tanto nesse sentido… Quem aceitar ficar no grupo, com certeza vai gostar de acompanhar cada avanço nas pesquisas e, como muitos se beneficiarão no futuro com o processo, certamente poderão te ajudar com as despesas.

Documente TUDO!

Se você for uma pessoa de caneta e papel, ótimo: coloque cada familiar em uma pasta junto a todas as informações obtidas das conversas. Se você for uma pessoa de computador, faça o mesmo virtualmente. O importante é ter tudo muito bem documentado. Quanto mais difíceis forem as informações a respeito do antepassado, mais incrível será descobri-las a partir do cruzamento dessas pequenas informações compartilhadas.

Family Search – o tinder genealógico

A parte digital mais interessante da organização de sua pesquisa será, sem dúvida, o Family Search. Trata-se de uma organização internacional sem fins lucrativos, que oferece ferramentas gratuitas para ajudá-lo a organizar sua genealogia. Esse site eu recomendo mesmo às pessoas que preferem fazer tudo no papel e o motivo é muito simples: na medida em que você vai cadastrando os familiares, com as informações de nascimento, casamento, etc., ele vai cruzando os dados com os dados de outras árvores genealógicas, dando matches entre famílias, e o trabalho vai ficando não apenas mais simples como também mais produtivo — já que você vai poder não apenas registrar as informações de sua família, como descobrir outras informações registradas por outras pessoas.

Só recomendo muito cuidado! O Family Search nos faz mergulhar num universo tão amplo de nomes, datas e histórias, que, se você não se atentar aos objetivos do seu cadastro, vai perder um precioso tempo nos múltiplos galhos de sua árvore. Não que não seja emocionante e intrigante viajar na história das famílias — eu mesmo descobri antepassados e ramificações surpreendentes, mas deixe para fazer isso depois de descobrir o principal: seu antepassado italiano. Por isso, foco na linha genealógica entre você e essa pessoa!

Do boca a boca aos primeiros documentos

Se você não conseguiu arrancar absolutamente nada (ou quase nada) dos familiares, não se desespere. Agora vem a parte mais assertiva da pesquisa; chatinha, talvez, trabalhosa… mas a mais preciosa do processo: as certidões nos cartórios brasileiros.

Para quem se deu bem nas conversas com a família e já tem uma boa pista de quem foi o antepassado, não subestime essa etapa! Saber como foi registrado cada nome e sobrenome entre você o antepassado, será de fundamental importância em fases futuras do processo. Portanto, anote essa dica.

O que você deve fazer agora está intimamente relacionado às pessoas que te antecedem genealogicamente até chegar ao seu antepassado italiano. Aqui, para tornar mais fácil o entendimento do processo, vou me usar como exemplo: minha linha genealógica era:

1. Saulo Pessato (eu)

2. Natalina Pessato (minha mãe)

3. Sílvio Pessato (meu avô)

4. Giuseppe Pessato (meu bisavô e antenato italiano).

Entenda que, nesse caso, só interessam as certidões de nascimento e casamento das pessoas dessa linhagem: eu > minha mãe > meu avô > meu bisavô

Imaginemos que eu não soubesse absolutamente nada sobre o Giuseppe.

Mas sabia que minha mãe é sua descendente direta. Então precisei descobrir onde minha mãe nasceu e solicitar no cartório daquela cidade sua certidão de nascimento. Difícil? Nem um pouco. Nessa certidão, estavam os dados dos pais dela, meus avós por parte de mãe.

O próximo documento agora era o do meu avô. Após descobrir onde meu avô morreu fica simples descobrir onde ele se casou e, posteriormente onde nasceu. De posse dessas certidões, descobri o nome do meu bisavô.

Reparem que essas informações independem daquelas extraídas das conversas com os familiares. Se tinha dados, eles se cruzam, se confirmam e se completam; se não tinha, agora tenho nomes, lugares e datas. Simples assim!

O processo vai mesmo no sentido oposto do tempo ! Começa por você — porque você sabe sobre você: quem são seus pais, onde nasceram, casaram e, se forem falecidos, também onde faleceram. As certidões de óbito e de casamento são também importantes na pesquisa. Descobrir onde nasceram os tios ajuda a traçar o caminho (geográfico mesmo) feito pelos avós. E isso vai ajudar a localizar cada certidão, que trará sempre um detalhe a mais do que outra. E você vai precisar de todos para guiar a sua pesquisa até descobrir quem foi o antenato italiano.

Inteiro teor

Todas essas certidões devem ser solicitadas em inteiro teor nos cartórios. Nas certidões em inteiro teor, o tabelião reproduz TODOS AS AS INFORMAÇÕES encontradas nos livros ou documentos originais, o que não acontece nas certidões comuns, que só descrevem quem nasceu, quando e onde. Já disse que todo detalhe vale ouro para construir os caminhos até seu antepassado italiano? Já né? Então…

Habemus italian

Temos agora, na pior das hipóteses, o nome e o sobrenome do seu antepassado italiano. Digo na pior das hipótese, porque, em realidade, toda pesquisa constituída dos passos acima descritos frutifica muito mais e nos torna inevitavelmente vulneráveis à própria história.

Eu mesmo não estou imune às descobertas, mesmo alheias — ajudei minha namorada a achar os antepassados dela e fui igualmente capturado pelas mesmas emoções; e, da mesma forma venho sendo tocado ao ajudar desconhecidos a fazer o mesmo processo.

Há certa poesia nesse trabalho!

O mais importante é que agora começa uma nova etapa: descobrir a região, a província e, finalmente a cidade (o comune) onde ele nasceu. E essa parte, que antecede a busca propriamente dita do documento… bem… deixe tudo comigo!

Saulo Pessato

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